• Um convite à cozinha

    por  • 15/02/2012 • Comportamento, Saúde • 5 Comentários

     

    Mulheres amam homens que cozinham. E acho que homens adoram mulheres que cozinham. Só tem um problema nessa equação: a maioria das pessoas diz que não gosta de cozinhar. Você é desse tipo? Se não, pule esse parágrafo, estaria pregando pra convertido. Se é, já tentou escolher uma receita bacana – gostosa mas não muito difícil -, sair pra comprar ingredientes fresquinhos, chegar em casa e colocar sua música preferida, com toda calma do mundo abrir uma boa cerveja/vinho e – com a ajuda de um adulto – começar os trabalhos? Se a resposta é negativa, repense seu conceito de “cozinhar”. Chegar em casa morto(a) de fome e fazer Miojo não conta.

    Resolvi fazer pro blog uma série de receitas que vai da entrada à sobremesa. Intercaladas, naturalmente, por resenhas e outras besteira que posto aqui. A ideia é que um n00b possa ler cuidadosamente as instruções e consiga fazer a comida, por isso a explicação é detalhada. Vou começar com o prato principal, que foi a melhor comida que já fiz na vida e achei válido dividir com vocês.

    Componentes

    Então, começamos pelo essencial: os ingredientes. É uma questão de lógica: bons ingredientes têm potencial de resultar em uma boa comida (se você não deixar a comida em fogo alto e/ou for pro Facebook contar que tá fazendo comida!). Já ingredientes ruins… Assim, se na receita disser pra você usar queijo camembert e você usar queijo lanche porque “deve ser quase igual e é mais barato”, ok. Sua conta e risco. Mas não diga que a receita é ruim ou que as instruções estavam mal dadas! Se o Jamie Oliver manda usar camembert em uma receita, o cara é o rei, estudou anos e testou vários queijos diferentes para chegar à conclusão de que o camembert é melhor queijo naquela receita. Por que eu ou você vamos mudar?

    Então, se quer impressionar o affair, primeiro: bons ingredientes. Depois: teste exaustivamente – à perfeição – a receita antes do date, a não ser que tenha uma brutal prática na cozinha. Mas… Sejamos francos: se você tivesse uma brutal pratica à cozinha, já teria pulado pra receita.

    O chutney

    Fim das preliminares. Essa é uma receita que exige tempo. De verdade. E paciência. Cozinha em geral exige paciência. Deve ser por isso que a geração 140 caracteres não sabe mais fritar um ovo. Mas essa receita é especial. E vale cada minuto gasto na volta do fogão e do forno, prometo. Eu a vi com o meu novo amor, Chuck, preparando. O link pra receita tá aqui, não tem razão de repetir ingredientes e quantidades, então só vou dar dicas quanto ao preparo do prato.

    http://gnt.globo.com/receitas/Presunto-caramelizado-com-manteiga-de-maca–anote-a-receita.shtml

    Para o chutney de maçã (que por algum motivo ele chama de manteiga de maçã), a dica é comprar um suco de maçã sem açúcar. Não precisa tirar sementes das maçãs nem besteira. O chutney vai ficar marrom, mas eu procurei ser rápida e ir cortando e colocando a maçãs no suco right away. 40min, 1h, panela fechada, volta e meia vira para colocar as maçãs de cima para baixo e pronto.

    Dica de mãe é lei

    Uma coisa que minha mãe sempre me diz: na cozinha há o instrumento certo pra coisa certa. Tem uma peneira de aço pra vender. Não imagino outro instrumento pra ingrata tarefa que se apresenta agora. Peneira de plástico é frágil, você não vai poder amassar pra tirar bem o suco e vai pro lixo metade do chutney. E se você curtir a brincadeira de fazer sua próprias refeições e, a partir daí, saber o que está comendo (sério, quem arrisca a me dizer o que tem dentro de um hambúrguer de caixinha?), vai usar sempre a tal peneira. Não, não ganhei nenhum centavo por merchant de fábrica de peneiras de aço :( que babaca…

    Após alguns minutos, braço e pulso doídos por fazer força pra espremer o suco das maçãs, o caldo volta pra panela com condimentos. Além daqueles da receita eu coloquei pimenta síria moída. No Rio eu compro nas Casas Pedro (sem merchant de novo, droga!). Também coloquei bem menos  açúcar do que mandava (usei algo em torno de uma xícara e um quarto). Nada a ver com dieta, tudo a ver com paladar. Acho que açúcar demais tem o incrível poder de estragar qualquer receita.

    Atenção! Eu não costumo mudar as receitas, só quando eu sei a razão pela qual aquele ingrediente figura naquela quantidade naquela receita. Use isso como regra de ouro. Só suprima/substitua quando souber exatamente o que estiver fazendo. Ou quando não se importar de estragar a comida.

    Outra observação: eu pensei em colocar pimenta dedo de moça picada, uma ou duas sem semente. Mas dizia no fim da receita que o chutney pode ser usado para doces. Fato é que o porco é tão absurdamente bom que eu jamais usaria esse chutney pra nada além dessa carne. Então fica a seu critério. Sobra muito chutney, que pode ser congelado.

    Quando aquilo tava pronto, o cheiro da minha casa era algo indizível. Maravilhoso. Invejável. Foi um tapa na cara do vizinho que faz bolo naquela hora da noite que a nutricionista proíbe terminantemente os carboidratos.

    Chutney


    Bom, àquelas alturas eu não tinha a carne porque ainda tinha esperanças de encontrar, em algum lugar do Rio de Janeiro, um pernil tipo Asterix e Obelix. No dia seguinte percebi que, se não é impossível, ao menos eu não tenho persistência suficiente pra encontrá-lo. Depois descobri que vendem ou o corte inteiro (tipo, pra 30 pessoas comerem) ou aos pedaços, a um preço… proibitivo. Comprei um corte com osso que já vinha temperado, mas nada que água não resolva. Lavei mesmo!

    Carne e legumes

    Descobri uma incompatibilidade seríssima entre o Chuck e mim. Terei que resolver isso antes de mandar a carta de apresentação com minha proposta de namoro: ele não gosta de pimenta. E comida sem pimenta não existe pra mim. Aliás, repararam que não tem sal na receita? Muito estranho. Até receitas doces levam sal porque o sal abre as papilas gustativas. Sal é vida. Coloquei na água da carne, além dos temperos que ele manda: pimenta calabresa e pimenta verde moída (ambas picantes) um pouco de sal e pimenta rosa em grão.

    O aipo pode ser comprado (ao menos na minha fruteira) pela metade. É como se você fosse fazer uma sopa de legumes. E no meio dos legumes, coloca aquele pedação inteiro de carne. Eu deixei a gordura porque ela dá gosto. Às vezes mexa, cuidadosamente, pois à medida que cozinha ela vai ficar bem macia. E, novamente, o cheiro é incrível. Panela tampada.

    Quando passou o tempo de cozimento, eu fiz a besteira de colocar a carne na assadeira e… jogar os legumes fora! Oh noes! Burrada absoluta, quando comi um pedacinho do aipo que “caiu” nada acidentalmente na assadeira (eu guardei pra ver se ia ficar bom), tinha vontade de me jogar do sexto andar por ter jogado quase tudo fora. Aprendizado.

     

    O caldo também não vai fora. Ele vira caldo de carne. De verdade! Com ele você pode fazer risotos, molhos e várias outras gostosuras. Fiz lentilha com ele e ficou incrível! Como foi meu primeiro caldo de carne feito na vida (até relativamente pouco tempo atrás eu era vegetariana) eu fiz a (outra) besteira de tentar tirar a gordureba que ficou por cima. Foi um monte de caldo pro lixo. Mas depois de colocá-lo na geladeira, lembrei (tarde demais) que quando a gordura gela, ela se separa do resto do líquido e fica em cima (face palm triplo). Quando for usar da próxima vez, é só tirar com a colher a gordura e jogar no lixo. Ou melhor: ao invés de usar manteiga/margarina/óleo/azeite pra fritar cebola, você pode recorre à sua geladeira e pegar seu caldo de carne caseiro. O caldo também pode ser congelado em potes pequenos ou em forminhas de gelo. Para usar em risoto, já sabe como faz, né? Arroz arbóreo, coloca o caldo quente, aos poucos, vai mexendo, espera evaporar quase todo, coloca mais um pouco… enfim, receita pra outro dia :-)

    Última etapa

    Carne na fôrma (gosto de acento diferencial! Na minha gramática, ele FICA!). Quando tiver chegando ao final do cozimento na panela, faça o molho da carne. Aquele com o chutney, mostarda, mel e… sal! Não tá na receita, mas eu coloquei um pouco (que mal mandada!). Sem segredo, fora que aquela quantidade é pra 4,5kg de carne. Eu comprei um corte de 1kg, logo sobrou um monte de molho. Serei obrigada a repetir a receita, que chato… ;-)

    Que feio, né?

    Com a carne na fôrma e o forno pré-aquecido, faça o que manda na receita: pincele a carne com molho (lembre-se: o instrumento certo para a tarefa certa: pincel), deixe sempre a fôrma com um pouco de água e já pro forno.

    A água serve pra você não ter que jogar a fôrma fora logo após terminar de assar a carne (porque grudaria tudo, obviamente), mas também porque ela não deixar a carne ressecar. Então, não deixe nunca ficar sem água. E tente não comer as paredes enquanto a carne não fica pronta (lembra da história da paciência? Pois, treinamento pra Buda, parte I), porque o cheiro dá fome, mesmo que você tenha acabado de comer um boi.

    Nhammmm!

    Então, espero que tenham se animado, pelo menos a começar a cozinhar. Essa é uma receita que demanda tempo e dedicação e, pra absolute begginers, talvez seja demais. Mas eu tinha que compartilhar porque é excepcionalmente boa. Prometo na próxima pegar mais leve :-)

    Se você é super super iniciante e tá afim de ter uma vida mais saudável do que restaurante/Miojo, aconselho um livro do Jamie Oliver chamado Revolução na Cozinha. Receitas super fáceis de 15 minutos FTW.

     
    Roberta Manaa

    Sobre

    Gaúcha que se apaixonou pelo Rio. Vive de música, gosta de filmes, HQs, arte, livros, RPG, xícaras, cerveja, viagens, sol, culinária, solidão, amigos, café, jogos e astronomia. Enfim, uma criança em disfarce de adulta.

    • tbrvelasquez

      Deve ter ficado show!! Água na boca perto da hora do almoço…

      • http://www.facebook.com/people/Roberta-Manaa/100001172572341 Roberta Manaa

        Se o tempo permitir, dia 7 vocês provam :)

    • http://www.facebook.com/rodrigomontaleao Rodrigo Montaleão

      A pincelada na carne foi profissa!! Nom Nom Nom!!!

    • Luiz com Z

      Eu nunca comi miojo e não usei meu fogão mais do que cinco vezes em três anos. Em qual categoria me enquadro? #D

      • http://www.facebook.com/people/Roberta-Manaa/100001172572341 Roberta Manaa

        Hum, te enquadras na categoria “ODEIO COZINHA! SAI PRA LÁ! QUE SACO, ODEIO TUDO!” :P
        Deixando a brincadeira de lado, quando eu era adolescente a mãe sempre me pedia pra cozinhar com ela. Minha resposta era: “mãe, quem gosta de cozinhar és tu! Eu odeio tudo isso, só quero comer! Me chama quando estiver pronto, tá?” hehehehe
        Por essa razão sou tão insistente no ponto de “cozinhar é legal, give it a try” :)